Pular para o conteúdo
O paradoxo da IA no consumo brasileiro: o cliente confia na máquina para decidir, mas desconfia dela para ser convencido — Ana Rigollet, Rigollet Branding
Blog
Comportamento do ConsumidorAugust 15, 20268 min read

O paradoxo da IA no consumo brasileiro: o cliente confia na máquina para decidir, mas desconfia dela para ser convencido

In short

Um dado recente resume bem a relação ambivalente do brasileiro com a inteligência artificial no consumo. Cerca de 58% já usam IA para comparar preços e apoiar decisões de compra, mas 62% preferem campanhas feitas por humanos e 81% valorizam quando um bot de atendimento usa uma linguagem acolhedora. À primeira vista, parece contradição: como o mesmo consumidor adota a IA para decidir e a rejeita quando a marca a utiliza?

Um paradoxo interessante, no mínimo

Os três dados apontam para direções aparentemente opostas. O primeiro fala sobre a etapa de adoção: o consumidor incorporou a IA à sua própria rotina de decisão, usando ferramentas para comparar preços, resumir avaliações e filtrar opções. O segundo, sobre resistência: quando o assunto é a comunicação da marca, a preferência é pelo humano. O terceiro mostra uma condição: mesmo aceitando o atendimento automatizado, o consumidor exige que ele soe humano.

O ponto a ser analisado aqui, é o papel que a tecnologia ocupa em cada situação da jornada do consumidor.


Tarefas objetivas versus tarefas subjetivas

Comparar preços é uma tarefa objetiva por excelência: há uma resposta certa, e a máquina faz isso melhor e mais rápido que uma pessoa. Ser convencido a gostar de uma marca é uma tarefa subjetiva, ligada a gosto, emoção e identidade, terreno em que o consumidor confia mais no humano.

Os estudos sobre a relação das pessoas com sistemas automatizados descrevem dois comportamentos complementares: a "apreciação de algoritmos", identificada por Logg, Minson e Moore (2019), segundo a qual as pessoas tendem a confiar mais no julgamento automatizado do que no humano em tarefas objetivas; e a "aversão a algoritmos", descrita por Dietvorst, Simmons e Massey (2015), que mostra a resistência a confiar na máquina em tarefas subjetivas ou quando ela erra em decisões sensíveis.

Esse fenômeno tem nome na literatura. O efeito "word-of-machine", demonstrado por Longoni e Cian (2022) em estudo publicado no Journal of Marketing, mostra que os consumidores preferem recomendações de IA para atributos utilitários (o que é mais barato, mais durável, mais eficiente) e recomendações humanas para atributos experienciais (o que é mais bonito, mais gostoso, mais alinhado ao seu estilo). A IA é vista como competente para o funcional e limitada para o que interage diretamente com os nossos gostos, interesses e valores.


Por que a marca que usa IA na comunicação nativa está se arriscando

Há uma segunda camada, ligada a quem controla a ferramenta. Quando o consumidor usa a IA, ela é uma extensão dele, trabalhando a favor dos seus interesses. Quando a marca usa a IA para se comunicar, o consumidor percebe uma intenção de persuasão, e é aí que entra o modelo de conhecimento de persuasão, descrito por Friestad e Wright. Segundo esse modelo, as pessoas acionam um repertório de defesa sempre que identificam uma tentativa de convencimento, e passam a avaliar a mensagem com mais ceticismo.

A IA amplifica esse efeito. Uma campanha percebida como gerada por máquina soa como persuasão em alta escala, e isso ativa a defesa do consumidor. Estudos sobre conteúdo gerado por IA mostram inclusive que a simples suspeita de automação reduz o engajamento e a confiança. O que incomoda, é a sensação de estar sendo convencido por algo sem "verdade".


A linguagem humana não necessariamente precisa partir de um ser humano

O consumidor não rejeita, necessariamente, a automação do atendimento.

Aceita falar com um bot, desde que a experiência não o faça sentir-se processado como números binários sendo interpretados por uma máquina e traduzidos em códigos lá do outro lado, que disparam respostas prontas.

A avaliação de uma interação depende fortemente da sua carga emocional; um atendimento automatizado que resolve com agilidade e trata a pessoa com cordialidade cria uma memória positiva. Um que responde de forma robótica e engessada cria atrito, e o atrito, em um consumidor já saturado, pesa mais do que a eficiência. A automação, portanto, não substitui a necessidade de humanidade. Ela precisa carregá-la consigo.


Onde automatizar e onde não: um mapa pela jornada

A conclusão é decidir onde a automação melhora a experiência e onde ela corrói.

Como já entendemos até aqui, a automação tende a criar valor nas etapas utilitárias, em que o cliente quer velocidade e objetividade: comparar opções, tirar uma dúvida simples, consultar o status de um pedido, receber uma recomendação funcional. E tende a corroer valor nas etapas experienciais, persuasivas ou emocionais: convencer alguém do valor da marca, acolher uma reclamação delicada, conduzir uma negociação sensível ou construir vínculo.


O que isso significa para a sua empresa

Para uma empresa, inclusive de pequeno e médio porte, o aprendizado é direto e economiza. Use a IA para tirar atrito das etapas objetivas, porque é ali que ela aumenta a satisfação e libera o seu time para o que importa. E preserve a presença humana, ou pelo menos uma linguagem genuinamente humana, nas etapas em que o cliente quer se sentir compreendido. A automação bem colocada pode sim, melhorar a experiência.


Ana Rigollet

15 de Agosto de 2026


Referências

Friestad, M., & Wright, P. (1994). The Persuasion Knowledge Model: How People Cope with Persuasion Attempts. Journal of Consumer Research.

Longoni, C., & Cian, L. (2022). Artificial Intelligence in Utilitarian vs. Hedonic Contexts: The "Word-of-Machine" Effect. Journal of Marketing.

Logg, J. M., Minson, J. A., & Moore, D. A. (2019). Algorithm Appreciation: People Prefer Algorithmic to Human Judgment. Organizational Behavior and Human Decision Processes.

Dietvorst, B. J., Simmons, J. P., & Massey, C. (2015). Algorithm Aversion. Journal of Experimental Psychology.

Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow.


Fontes

Oito e Onze — o consumidor usa IA para decidir e desconfia quando a marca faz o mesmo

Premium Newsletter

Want to receive weekly articles on market trends, marketing, and how brands are moving?

Subscribe to the newsletter for just $7.90/mo and get exclusive content delivered to your inbox.

Secure credit card payment · Cancel anytime

✳

Cookies & Privacy

We use cookies to analyze site traffic and improve your browsing experience. Your data is not shared with third parties beyond analytics tools. By clicking "Accept", you agree to the use of cookies in accordance with our privacy policy.